traduzido por Alfredo Votta

 

          Se você acha que o povo da sua paróquia católica canta bem, faça uma visita à igreja batista da sua cidade. O cantor anuncia a música. Todo mundo, sem exceção, pega um hinário. Tocam a introdução e o hino começa. Vem um som que quase te derruba da cadeira. Você canta junto, mas, não importa quão alto você cante, você não faz diferença. Para o batista é um dia normal, mas para o católico é qualquer coisa de muito impressionante.

          Por muitas gerações as pessoas se têm perguntado porque as paróquias católicas não fazem assim. Nós bem que tentamos bastante. Nenhuma retórica é mais furiosa do que a dos músicos católicos e suas frustrações com suas paróquias.

          E por que as pessoas não obedecem? É como ouvir pessoas denunciando crianças por não ser comportarem direito. Estão sempre exigindo. Até tentam intimar as pessoas à “participação ativa”. Escolhem música com base no tanto que as pessoas vão cantar junto, como se isso fosse a única coisa que importa.

          Por décadas isso tem acontecido, e mesmo assim nada muda.

          Mas será que não estamos confundindo as coisas? A sensibilidade que leva os batistas a fazer estas coisas não teve que lhes ser imposta. Não houve treinamento. O hino, para tal comunidade, é sua própria voz, música que vem do povo para celebrar sua unidade de propósito e de crença.

          É a própria homilia deles, para si mesmos, isto é o que eles são, algo em que eles acreditam como seu e que tem seu propósito interno completamente independente de qualquer ação no altar ou qualquer função litúrgica ou sacramental. Tal canto acontece no mesmo espírito de uma canção patriótica num evento cívico, exceto pelo fato de que a letra é diferente. Não é forçado, é orgânico ao seu modo de culto.

          Esse tipo de canto não é orgânico à liturgia católica, cuja música não é um fim em si mesma. Seu propósito é acompanhar alguma outra ação: procissões, meditação de um Salmo entre leituras, diálogos com o celebrante ou alguma outra atividade. O papel do canto cabe primordialmente à schola e ao cantor, não ao povo. E o povo sabe disso. E é assim desde os primeiros registros [da liturgia].

          É permitido ao povo (e ele é mesmo encorajado a isso) cantar certas partes especiais como o Ordinário da Missa (e o Sanctus pode ser tecnicamente chamado de um hino), mas a música não está dividida em métrica previsível; a linguagem está em prosa, e não em poesia rimada. Sem exceção, todo católico se reserva o direito se de manter silenciosamente em oração, sabendo muito bem que, ele cantando ou não, isto não faz diferença nas graças oferecidas na Missa. Somos livres para participar externa ou internamente, como desejarmos.

          A música é parte integrante da liturgia, nascida nela. Não é o povo quem a faz. Não somos nós que a geramos. O povo pode ser parte dela, mas não é sua responsabilidade. E quando os fiéis cantam, não é para reforçar sua percepção de membros de uma comunidade. É para participar mais inteiramente das ações sagradas que ocorrem de maneira litúrgica. Isto vem de dentro da liturgia, não é imposto de fora. Isto não vem do povo. Vem, sim, da oração na qual o povo é convidado, mas não obrigado, a participar. Você pode fazer todo tipo de convocação, pode gritar e exigir. Mas, no final, o senso católico de papel do povo no canto não vai mudar.

          Aqui está a idéia controversa que eu gostaria de colocar: não há nada errado com isso. Na verdade, o povo talvez esteja mais certo do que as “autoridades” que o estão sempre denunciando. E se o povo em algum momento começasse a cantar como batistas, no contexto de cultura paroquial que eu conheço, o novo ethos surgiria em detrimento do foco primário do Rito Romano. O ritual católico não se baseia no povo e não se centra nele. Não é dado pela comunidade como um presente entre os membros. É um dom de Deus que Lhe oferecemos de volta, algo que recebemos humildemente como uma bênção e uma ocasião de graça, enquanto oferecemos nossas vidas de volta para Deus, em sacrifício.

          É por isso que o hino – que eu defino aqui como uma música estrófica, dividida metricamente, com rimas e em vernáculo – tradicionalmente não tem lugar na liturgia católica, especialmente na Missa (não incluo os hinos do Ofício, que não se encaixam nesta minha definição). Mesmo os estudos que investigam o uso de hinos da Missa católica encontram esse tipo de hino somente depois do Concílio de Trento, como influência do crescente uso de hinos no culto protestante. Antes disso, o uso de hinos era desconhecido.

          O povo não canta a procissão. Não canta o Próprio da Missa. Cantam partes da Missa de acordo com a tradição local e o impulso privado, mas nada jamais lhe foi exigido neste sentido.

          Em outras palavras, eu sugeriria que há razões tradicionais e válidas pelas quais os católicos não cantam nas celebrações da maneira que os batistas cantam, exceto em ocasiões extremamente raras. Isto nunca será a norma, e se viesse a ser, no contexto cultural atual, eu diria que algo errado aconteceu com o rito.

          Uma comunidade elevando a voz dessa maneira sugere uma comunidade em celebração não-sacramental. No contexto católico podemos ver isto numa peregrinação ou numa reunião de celebração em honra a um santo padroeiro. Mas na liturgia é outra coisa que acontece. Estamos transcendendo o que somos e indo além das amarras do tempo e do espaço.

          O que devemos sentir é uma grande reverência. Devemos nos tornar gradualmente menos cônscios de nós mesmos e dos outros e cada vez mais conscientes da atemporalidade. O visível está presente, mas nós nos tornamos conscientes do que antes era invisível.

          Eu me lembro de um baile de igreja no qual as pessoas gritavam a letra da música que estavam dançando. Não há nenhum problema em que católicos cantam assim neste contexto, com as luzes piscando e os corpos se movendo. O que acontece aí? Nada sagrado, nada milagroso, nada litúrgico. Só uma festa. Nessa situação os católicos cantam como qualquer outro. Por que não fazem a mesma coisa na Missa? Eu diria que se os católicos forem cantar assim na Missa, teremos que recriar a sensação que leva as mesmas pessoas a gritarem num baile.

          Imagine observar um milagre mesmo num contexto não-litúrgico. Qual é o impulso: cantar o mais forte possível ou ficar em silêncio? Se alguém interrompe a cena com gritos, nós nos perguntaríamos se essa pessoa está consciente do que está acontecendo. Mesmo no nosso tempo de liturgia mundana e conversas rasas no altar, o senso católico continua sendo o de ver a liturgia como algo solene, não algo que fazemos por nossa própria conta, mas algo a que nos devemos submeter.

          O impulso é o de se manter em silêncio. Claro, somos livres para cantar o Glória, os diálogos, o Sanctus, o Agnus Dei, desde que de modo compatível com a atmosfera de oração. Mas sempre tentamos não forçar nossas vozes acima do volume à nossa volta. É um impulso de humildade. Cantar acima dos outros e arrogância são contrários àquilo que acreditamos dever fazer.

          Permitam-me esclarecer que não sou diferente de nenhum outro músico católico. Eu gosto de saber que as pessoas estão cantando. Isso me inspira a cantar o Glória e o Sanctus. Eu gostaria de ouvir o Credo cantado por todos, toda semana. Eleva-me saber que a assembléia aprendeu um novo Kyrie e responde bem ao coro.

          Tampouco sou ingênuo. Mesmo no volume mais forte, o canto católico sempre será uma fração do volume dos protestantes. O fato é que cantar é o que os protestantes fazem. É o que eles têm. É algo desejado pela comunidade porque eles entendem estes símbolos e propósitos.

          O que nós fazemos é diferente. Não estamos num círculo fechado. Colocamo-nos em direção ao Oriente, em direção à eternidade. Isto muda tudo. Devemos permitir que isto aconteça, adaptar a isso as nossas expectativas, e ser gratos pelo fato de que os católicos não perderam completamente o senso de que eles devem diminuir para que Deus cresça.