Missa crioula – Ou, a tradição gaúcha e a bizarrice litúrgica

2009 setembro 14, por Rafael Vitola Brodbeck

 

          Aproveitando que hoje iniciamos, no Rio Grande do Sul, a Semana Farroupilha, que culminará no glorioso 20 de Setembro, em que lembramos os feitos do decênio heróico (1835-1845), e, na oportunidade, cultivamos todo o ethos gaúcho, lanço algumas considerações sobre a “Missa crioula”. A pretexto de gauchismo, desde os anos 70, se promovem, mormente na Semana Farroupilha, essa empulhação travestida de tradição.

          A celebração da tal Missa crioula não tem nada nem de católico, nem de tradicional gaúcho. É de um gauchismo caricato, artificial. Tradicional por tradicional, rezem a Missa tridentina, então, hehehe

          Seria interessante deixar claro, por exemplo, que não se deve admitir a mistura de símbolos litúrgicos com culturais gaúchos, que não se deve entoar cantos que, embora religiosos, não sejam adequados à liturgia, que não existe um rito gaúcho, que não se deve inventar ritos como os de colocar os lenços na cruz etc. 

          Essa Missa dos CTGs NÃO é lícita! O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) inventou um rito, meteu no meio do rito romano e deu nessa palhaçada! A tal “Missa Crioula” dos CTGs é de uma falta de respeito que nunca vi em lugar nenhum! Totalmente sem propósito, além de violar a norma litúrgica, que não confere aos sacerdotes mudar o rito, nem aos Bispos. Só o Papa pode mudar a liturgia. O rito do MTG é ilícito (ainda que a Missa seja válida), suas cerimônias não são coerentes com o rito romano, e sua celebração é totalmente artificial, pois partem do pressuposto de que o verdadeiro gauchismo é fazer tudo “de um modo gaúcho”: ora, isso é artificial, é um gauchismo fictício, industrializado. Digo mais: a tal Missa Crioula é CARICATURIZADA! Se o MTG quer algo que seja tradicional, que represente o Rio Grande na época de ouro (das revoluções, por exemplo, que são sempre por nós cultuadas), então que façam celebrar a Missa tridentina (que era o rito em vigor na época).

          Essa celebração atenta contra o rito romano, contra a unidade da Igreja, contra a noção de liturgia, mas também contra o verdadeiro gauchismo. Não se é gaúcho por meter bombacha em tudo… Palavra de quem anda sempre com uma!

          Não se confunda, outrossim, a Missa Crioula do MTG (que tem coisas absolutamente bizarras, como mudança dos textos da Bíblia, adaptação do Ordinário, e invenção de um Próprio que não consta do Missal, entre outras coisas das mais esquisitas), com a belíssima Misa Criolla, de Ariel Ramirez, composição sacra com ritmos da pampa (chacarera, milonga, zamba), toda em espanhol, para os textos do Ordinário (Kyrie, Gloria etc), sem alterar a letra e sem palhaçadas.

          Acreditem: as palavras acima NÃO foram duras… Foram amorosas, para que os leitores tenham noção do “espetáculo” que é essa tal invenção do MTG. Se alguém de vcs assistir algo assim, garanto que tem um enfarto!

          A unidade do rito romano é ferozmente violada pela Missa dos CTGs. Talvez na melhor das intenções, mas o fato é que dessacraliza a cerimônia.

          As leituras são mudadas. O texto da Bíblia é mudado. O texto do Ordinário da Missa é mudado. As cerimônias são mudadas, e outras são acrescentadas. Não é respeitado o calendário litúrgico, nem o uso dos paramentos. Um Próprio (a parte que se altera a cada Missa) completamente diverso daqueles previstos no Missal é criado. As adaptações culturais permitidas pelo Vaticano II não devem, segundo texto expresso do próprio Concílio, atentar contra a unidade do rito romano. Ora, mudar os textos, as leituras, as orações, e até os paramentos do padre não é atender contra essa unidade? O rito romano resta preservado? Se mudam as orações, os textos, as leituras, os paramentos e a própria estrutura da Missa (Ordinário), pode-se falar que é o mesmo rito?

          Trata-se de uma distorção do rito romano, o que é ÍLÍCITO, ou da criação de um rito novo, o que também é ILÍCITO, dado que só o Papa pode legislar sobre liturgia.

          Creiam-me, meus caros, sou gaúcho e cultuador de nossa riquíssima tradição. Ando no dia-a-dia de bombacha, asso meu churrasco, vou a campo a cavalo. Mas cada coisa na sua hora. Como bem disse, tradição por tradição, a Missa crioula de tradicional não tem nada. É uma caricatura, um arremedo, e ouso dizer um deboche da verdadeira cultura gaúcha.

          O “rito crioulo” é artificial porque cria elementos não presentes em nenhum outro rito e completamente destoante até mesmo da espiritualidade católica tradicional. Não usa uma linguagem adequada para a liturgia também. De outra sorte, nem mesmo atende a um legítimo anseio do povo gaúcho: tradicional por tradicional (que é o que esse rito pretende ser), a forma extraordinária do rito romano é muito mais.

          Além disso, ele não se pretende outro rito, mas uma variação do rito romano, ou um rito romano inculturado. Entretanto, o próprio Vaticano II – como bem recordava João Paulo II – só permitiu a inculturação litúrgica salvaguardada a unidade substancial do rito romano. Além disso, é preciso autorização de Roma. Esse rito crioulo, de romano não tem nada (nada mesmo!), e, se é um rito novo, só poderia ser “criado” a partir de desenvolvimento litúrgico (o que não se faz, ademais, de uma hora para outra; desenvolvimento supõe anos, décadas, séculos). Outrossim, só quem pode criar ou reformar ritos é o Papa.

          Todos sabem que eu sou gaúcho daqueles de andar pilchado (estou até de bombacha e alpargata neste exato momento, e tomando meu mate da tarde), mas essa mania de ter tudo “à moda crioula” é um deboche da verdadeira tradição. Gaúcho que anda pilchado usa pilcha mais contemporânea, não uma “roupa típica do século XIX”: ninguém anda na rua fantasiado de gaúcho antigo (só se usa isso em apresentações artísticas de grupos que preservam o nosso folclore, os chamados CTGs). A pilcha que o homem do campo usa não é a pilcha do seu antepassado: e os homens da cidade que gostam das coisas do Sul também se pilcham como se estivéssemos na Revolução Farroupilha. Se assim o fosse, não seria pilcha, mas fantasia…

          É o mesmo raciocínio para a Missa crioula Uma caricatura da verdadeira tradição gaúcha.

          Sei que esse é um argumento por um viés não-religioso, mas ajuda a entender que esse rito de gaúcho não tem nada, não diz nada para o autêntico homem do campo (que vai à Missa todo Domingo e não precisa de “Missa fantasiada de CTG” para isso), e que eu, gaúcho cultuador das mais caras tradições pampeanas, sinto-me envergonhado por essa criação sulina…

          Justo hoje, em que comemoramos dois anos da entrada em vigor do Summorum Pontificum, que liberou universalmente a forma extraordinária do rito romano, recordo que se iniciam essas famigeradas Missas crioulas… Nada é tão tradicional na liturgia quanto a Missa justamente chamada tradicional. Mas querem chamar de tradicional essa invenção modernosa… O que a Missa crioula tem de tradicional para ser cultuada em Centros de TRADIÇÃO Gaúcha?