Vigário Judicial da Diocese de Novo Hamburgo

 

          Todos precisam de um pai e uma mãe espiritual. A mãe tem uma disponibilidade afetiva,  está sempre com os braços abertos. A figura do pai está necessariamente ligada à lei. E isto é fácil para a gente entender. A mãe e a criança estão ligadas, primeiro ela tem que segurar a criança no útero, ou do contrário ela perde a criança, depois no colo, mas depois a mãe quer segurar a criança em casa. O pai põe um limite na ligação entre a mãe e a criança, sem quebrar esta ligação.

          Às vezes pensamos que o pai entra para separar o filho da mãe, mas o papel do pai é o equilíbrio, e isso faz com que os nossos filhos cresçam no equilíbrio. Acontece hoje na sociedade uma crise, ninguém quer ser pai, ninguém quer ter limite. Mas alguém precisa assumir o encargo de colocar limites, e sabemos o quanto isso é necessário.

          É importante para você que é pai, assumir essa missão de ser 'lei,' de ser limite. Outra coisa importante: mesmo onde não exista um pai biológico, alguém precisa assumir o papel de pai, e deve ser do sexo masculino. Faz parte do desígnio de Deus que dentro da família real, a figura masculina ser aquele que põe limite, e alguém precisa assumir a realidade de pai.

          Como colocar esses limites? É importante compreender este limite, e para isso o pai precisa de uma virtude fundamental, a magnanimidade, que quer dizer “Alma grande”. O pai precisa ser magnânimo “A águia não se alimenta de mosca", a águia que é de alma grande não come animais pequenos somente os grandes.

          O pai não deve se preocupar com pequenos defeitos e sim com os grandes. Você não deve encher a vida do seu filho de regrinhas, porque as regrinhas desgastam a autoridade do pai. A mãe é responsável pelas pequenas regrinhas, e é exatamente por isso que a autoridade da mãe se desgasta, e quando ela quer dar uma ordem grande, e porque a autoridade dela já está desgastada então ela diz, bem então vou falar com o seu pai.

          Porque isso? É natural que a criança tenha mais cumplicidade com a mãe, porque eles viveram juntos nove meses. Uma dica aos pais. Um excelente educador disse: 'Não dê mais de uma ordem por mês, não explique muito'. Não mande demais, mande somente coisas importantes. Existe aí uma sabedoria de não gastar a autoridade do pai. É como uma faca se você usa demais, ela gasta. E quando você precisar ela não vai funcionar.

          A tendência dos filhos é querer a liberdade dos adultos, mas não querem as responsabilidades dos adultos. Se o seu pai não coloca as regras não se preocupe, porque a sociedade lhe colocará limites.

          Mas também não podemos ficar só no “não”, temos que ser criativos. Se você corta a internet, a viagem, o que você está colocando no lugar? Porque se o jovem não está na internet o que é que ele vai fazer, ele não vai querer “ficar de papo pro ar”.

          Talvez você não tenha planejado ter filho naquele momento, mas Deus planejou o seu filho, e você agora tem o filho, então saiba, daqui para frente a sua vida está mudada. Você precisa dedicar tempo a ele, e se você não quer que ele fique o dia inteiro na internet, gaste tempo com ele. Todo mundo quer abraço, mas ninguém quer fazer gol. Quer um filho bom? Gaste tempo com ele. Se você não tem tempo, bem então é porque você colocou na frente outras prioridades, você precisa ter alternativas, ou então depois não reclame. Vá ao cinema com seu filho, ao parque, você precisa investir tempo. É preciso também ir dando aos poucos responsabilidades para ele.

          O Pai não faz chantagem, é a mãe que, quando o filho diz que vai embora, chora, diz só se for por cima do cadáver. Já o pai diz “A porta da rua serventia da casa”. Esta é a figura do pai. Quer fazer o que quer com o seu dinheiro, mas se mora na casa dos pais e não paga nada? Está errado. Se você quer liberdade de adulto e responsabilidade de criança está errado, enquanto estiver dentro de casa é preciso assumir responsabilidades.

          Você foi criado na lei de Deus, você se revolta na adolescência, sai de casa. Muitas vezes os que não tem coragem de sair de casa, então saem espiritualmente, vive de cara emburrada. Na verdade ele é um covarde, não tem coragem de sair de casa, só se sente livre quando está fora de casa. Quer liberdade, mas não quer responsabilidades. E se ele sair de casa, e acontecer com ele como com o filho pródigo, ele vai se lembrar que a porta da casa estará aberta.

          'Quer um filho bom? Gaste tempo com ele'

          É importante que ele tenha um lugar, uma casa para voltar. Voltar para a educação que recebeu quando criança. E quantos de nós recebemos isso quando criança? Talvez você odiasse ir a Missa, mas hoje adulto, você diz: 'ainda bem que meus pais me educaram na fé católica, que bom que tenho uma casa para voltar, como “Filho pródigo”'  Cobre coisas grandes, fundamentais, não encha a vida dos seus filhos de picuinhas.

          Ninguém quer ser pai, ninguém quer ser limite. O problema da Igreja é de alfaiataria. Como assim? Está faltando calças compridas, está faltando homem para por limite. Qualquer clube de futebol tem lei, mas na Igreja ninguém quer que tenha lei.

          Você tem todo direito de seguir a religião que você quiser, a liberdade religiosa é um dom de Deus para este país. Agora o cara não se converte direito e quer vir aqui na nossa igreja fazer bagunça? O católico tem direito de ser católico neste país e quem não quer ser católico, tem religião para todo mundo, tem de todos os gostos e cores.

          E você como pai e como mãe como é que você vai educar seus filhos? Então você diz: 'mas meu filho não quer ir na missa!' Veja o que acontece, seu filho nasceu, você não diz, não vou ensinar língua nenhuma, nem português, nem inglês, quando ele crescer ele resolve se quer falar português ou inglês ou a língua que ele quiser. Ninguém faz isso, você mora no Brasil, todos falam português então você vai aprender a falar português.

          Enquanto o seu filho está na sua casa ele vai ser católico, quando ele crescer, for um jovem adulto, se ele quiser mudar, ele muda.

          Então você que é pai, saiba que tem um limite, tem um preço que você paga. Seu filho não convida 'a lei' para tomar chopp com ele, ou para comer pizza.  Ele convida o amigo. O preço que o seu filho paga para que o pai seja seu cúmplice é caro: ele será 'órfão'.

          Como é que a gente recupera a autoridade? Obedeça a Deus. Quando as pessoas perceberem que você é o primeiro a obedecer a Deus, então as pessoas vão começar a respeitar você como autoridade.

 

 

          A Responsabilidade do Homem e Pai de Família

          Escrito por Documento de Aparecida

          459. O homem, a partir de sua especificidade, é chamado pelo Deus da vida a ocupar um lugar original e necessário na construção da sociedade, na geração da cultura e na realização da história. Profundamente motivados pela bela realidade do amor que tem sua fonte em Jesus Cristo, o homem se sente fortemente convidado a formar uma família. Ali, em uma essencial disposição de reciprocidade e complementaridade, vivem e valorizam para a plenitude de sua vida, a ativa e insubstituível riqueza da contribuição da mulher, que lhes permite reconhecer mais nitidamente sua própria identidade.

          460. Enquanto batizado, o homem deve se sentir enviado pela Igreja a todos os campos de atividade que constituem sua vocação e missão dando testemunho como discípulo e missionário de Jesus Cristo na família. No entanto, em não poucos casos, desafortunadamente, termina renunciando a esta responsabilidade e delegando-a às mulheres ou esposas. 

          461. Tradicionalmente, devemos reconhecer que uma porcentagem significativa deles na América latina e Caribe, se mantém á margem da Igreja e do compromisso que nela são chamados a realizar. Deste modo, afastam-se de Jesus Cristo, da vida plena que tanto desejam e procuram. Esta condição de distância ou indiferença por parte dos homens, que questiona fortemente o estilo de nossa pastoral convencional, contribui para que vá crescendo a separação entre fé e cultura, a gradual perda do que interiormente é essencial e doador de sentido, a fragilidade para resolver adequadamente conflitos e frustrações, à fraqueza para resistir ao embate e seduções de uma cultura consumista, frívola e competitiva, etc. Tudo isto os faz vulneráveis diante da proposta de estilos de vida que, propondo-se como atrativos, terminam sendo desumanizadores. Em um número cada vez mais freqüente deles, vai se abrindo passagem à tentação de ceder à violência, infidelidade, abuso do poder, dependência de drogas, alcoolismo, machismo, corrupção e abandono de seu papel de pais.

          462. Por outro lado, uma grande porcentagem de homens se sentem cobrados na família, no trabalho e socialmente. Carentes de maior compreensão, acolhida e afeto da parte dos seus, de serem valorizados de acordo com o que contribuíram materialmente e sem espaços vitais onde compartilhar seus sentimentos mais profundos com toda liberdade,  eles são expostos a uma situação de profunda insatisfação que os deixa a mercê do poder desintegrador da cultura atual. Diante desta situação, e em consideração às conseqüências mencionadas traz para a vida matrimonial e para os filhos, faz-se necessário estimular em todas nossas Igrejas locais uma especial atenção pastoral para o pai de família.

          463. Propõem-se algumas ações pastorais:

          a) Revisar os conteúdos das diversas catequeses preparatórias aos sacramentos, como as atividades e movimentos eclesiais relacionados com a pastoral familiar, para favorecer o anúncio e a reflexão ao redor da vocação que o homem é chamado e viver no matrimônio, na família, na Igreja e na sociedade.

          b) Aprofundar nas instâncias pastorais pertinentes, o papel específico que cabe ao homem na construção da família enquanto Igreja Doméstica, especialmente como discípulo e missionário evangelizador de seu lar.

          c) Promover em todos os campos de atividade da educação católica e da pastoral de jovens, o anúncio e o desenvolvimento dos valores e atitudes que facilitem aos jovens e às jovens gerarem competências que lhes permitam favorecer o papel de homem na vida matrimonial, no exercício da paternidade e na educação da fé de seus filhos.

          d) Desenvolver nas universidades católicas, à luz da antropologia e da moral cristã, a pesquisa e a reflexão necessárias que permitam conhecer a situação atual do mundo dos homens, das conseqüências do impacto dos atuais modelos culturais em sua identidade e missão, e pistas que possam colaborar no projeto de orientações pastorais a respeito.

          e) Denunciar uma mentalidade neoliberal que não vê no pai de família mais do que um instrumento de produção e ganância, relegando-o inclusive na família a um papel de mero provedor. A crescente prática de políticas públicas e iniciativas privadas de promover inclusive o domingo como dia de trabalho, é uma medida profundamente destrutiva da família e dos pais.

          f) Favorecer na vida da Igreja a ativa participação dos homens, gerando e promovendo espaços e serviços nos campos assinalados.