1 - Antes de qualquer coisa, o que caracteriza a espiritualidade de Santa Teresinha é o regresso ao essencial do Evangelho. Ela fala constantemente de um Deus enamorado por seus filhos, que os procura e aceita a todos, cada um como é, com as suas virtudes e os seus defeitos, os seus dons e os seus limites. O amor de Deus aparece em Teresa de Lisieux como fonte de comunhão e solidariedade de uns para com os outros, tanto santos como pecadores, tanto crentes como não crentes. A sua própria vida é uma parábola desta delicadeza de Deus que vê a todos com olhos de Pai, por cima de todas as fronteiras religiosas, culturais, étnicas, etc. O Cristo do Evangelho, pastor, misericórdia, pai foi a grande descoberta de Teresa de Lisieux num tempo em que o Jansenismo reinado o afastava de todo o contato humano.

          2 - Um outro valor de fundo é a redescoberta da Palavra de Deus como fonte de vida. Numa época pouco aberta à leitura da Bíblia, ela antecipou-se ao Vaticano II, fazendo da Palavra de Deus o alimento das suas leituras. "A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo". É ela que nos conta como pouco a pouco passou da leitura dos autores espirituais a centrar-se na Escritura, sobretudo nos Evangelhos. Dia ela: "Mais tarde, os livros deixavam-me na aridez; quando abro um livro de um autor espiritual, sinto o meu coração fechar-se e leio sem compreender, ou então compreendo sem por lá o meu coração. É nestas circunstâncias que a Escritura e a imitação me vêm em socorro e nelas encontro alimento para a minha pobre alma. Descubro sempre nele, coisas novas, luzes, novas, significados escondidos, misteriosos. Compreendo e sei por experiência que o Reino de Deus está dentro de nós". A leitura e a meditação da Palavra de Deus levaram-na a descobrir o essencial na mensagem de Jesus nos pormenores de cada dia. "Nunca ouvi Jesus falar, mas sinto que está em mim e que a todo instante me guia e me inspira o que devo dizer ou fazer".

          3 - A paternidade e maternidade de Deus. Teresa viveu uma época caracterizada por uma espiritualidade de puritanismo jansenista que deformava o rosto de Deus, apresentando-o como juiz intransigente, que pedia vítimas para aplacar a sua cólera. Pelas suas leituras do Evangelho descobre que esse Deus não existia. O que emerge do Evangelho é um Deus de misericórdia, pai e mãe que nos ajuda a confiar nele como as flores do jardim e as aves do céu. Daí que a sua oração fosse um diálogo amoroso e confiante como Ele. Dizia ela que resolvia todos os problemas com a oração. "A oração e o sacrifício são todas as minhas forças, são armas invencíveis que Jesus nos deu, elas tocam as almas muito mais que os discursos". A descoberta de Deus como pai e mãe foi o ponto de partida para um novo caminho de santidade: o caminho da infância espiritual. Ser santo para Teresinha não é ser perfeito, mas ser filho. Jesus mostrou-lhe que o caminho da santidade é o da criança que se entrega aos braços do pai ou da mãe; que dorme sem medo, no seu colo.

          4 - Uma Santidade encarnada na história. A espiritualidade de Teresa de Jesus não nasceu nos livros. Teresa só escreveu o que viveu. Ela viveu a oração como um diálogo confiante com Deus pai e mãe, presente em todas as situações que ela vivia, presente nos acontecimentos, nas pessoas que encontrava. Para ela, o absoluto de Deus estava muito próximo, revelava-se nas pequeninas coisas, nas irmãs com quem convivia, nas trevas que lhe não lhe deixavam ver claro. Para ela a santidade não era uma perfeição isenta de erros e defeitos. Ser santo era saber amar, saber acolher, saber perdoar, saber sorrir. Santa Teresinha terá muita influência na nova imagem da espiritualidade e santidade que os teólogos do Vaticano II imprimiram à Igreja.

          5 - A escuta do Espírito Santo. Diz Von Balthasar que a teologia de Teresa de Lisieux é essencialmente uma teologia do Espírito Santo. Em todos os seus escritos e na sua experiência de fé, a dimensão trinitária está sempre presente. Já no retiro de preparação para o crisma, ela dizia: "Finalmente, chegou o momento feliz. Não senti um vento impetuoso no momento da vinda do Espírito Santo, mas aquela brisa ligeira de que fala o profeta Elias". Para ela, o Espírito Santo estava sempre presente nos acontecimentos mais ordinários, sem violência nem fenômeno extraordinário, mas de um modo muito discreto e sutil. Mas sentia bem que Ele andava por ali muito perto.

          6 - O seu amor pela Virgem. Na mais pura tradição do Carmelo, Teresa de Lisieux tinha grande devoção à Santíssima Virgem. Mas também aqui, antecipando-se ao Vaticano II, Maria era para ela a mulher simples de Nazaré, mais discípula que mestra, peregrina na fé e na esperança. Recusa a exaltação de Maria que não tem em conta a vida oculta de Maria de Nazaré. Para Teresa, Maria era mais mãe que rainha. Não gostava que lhe falasse de Maria num trono, inacessível aos pobres. A sua primeira poesia dedicada a Maria tem como título: "Porque te amo Maria". É uma síntese dos primeiros capítulos de São Lucas: a sua pobreza, o seu silêncio contemplativo, a sua simplicidade, a sua fé, a sua disponibilidade, o seu sim. Era nessa Maria que ela se revia e que ele amava.