Apresentação

          A missão eclesial sem fronteiras teve e prossegue tendo o sinal característico do “martírio”, como “testemunho audaz” do mistério pascal de Cristo: “Com grande coragem os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus” (At 4,33)

          A celebração do Jubileu do ano 2000 não poderá deixar de lembrar que “no nosso século, voltaram os mártires, muitas vezes desconhecidos, como que ‘militi agnoti’ da grande causa de Deus”. (TMA 37).

          O magistério de João Paulo II tem evocado insistentemente este tema como realidade da graça. “Como sempre na história cristã, os mártires, vale dizer, as testemunhas, são numerosos e indispensáveis para o caminho do Evangelho” (RMI 45). O martírio é “anúncio solene e compromisso missionário” (VS 93; cf. 89-94). Tornou-se “patrimônio comum” a todos os cristãos.

          Na oração dominical do “Ângelus” (7.1.1996), referindo-se ao decreto conciliar missionário “Ad Gentes”, dizia o Papa: “No decorrer dos séculos, a tradição missionária da Igreja escreveu páginas extraordinárias de história. Também hoje numerosos missionários consagram sua vida à causa do Evangelho e à promoção do homem, doando-se sobretudo em favor dos mais pobres, em situações quase sempre difíceis e perigosas, às vezes chamados a dar o testemunho supremo do martírio. Com as palavras dos padres conciliares, desejo enviar uma saudação muito afetuosa a todos esses arautos do Evangelho, ‘especialmente àqueles que sofrem perseguição pelo nome de Cristo’ (AG 42).”

          No ano de 1997 comemorou-se o centenário da morte de Santa Teresa de Lisieux (30 de setembro), que foi declarada padroeira das missões juntamente com São Francisco Xavier, por Pio XI, no dia 14 de dezembro de 1927.

          Em sua mensagem para a XII Jornada Mundial da Juventude (que ocorreu em Paris, em 1997), o Papa quis recordar este evento de graça, convidando os jovens a considerar a figura missionária da Santa de Lisieux: “Percorrei com ela o caminho humilde e simples da maturidade cristã na escola do Evangelho. Permanecei com ela no coração da Igreja, vivendo radicalmente a opção por Cristo”.

          O despertar missionário do século XX e o “amanhecer de uma nova época missionária” no início do Terceiro Milênio (RMI 92) seria inexplicável sem a figura martirial de Teresa de Lisieux. Nela aparece com toda clareza o valor do martírio permanente da vida missionária em si mesma, que é “Dom total de si mesmo, como fez Cristo na cruz” (VS 89). Quando “a missão percorre este mesmo caminho e tem seu ponto de chegada aos pés da cruz”(RMI 88), então nela resplandece “a força de Deus” (1 Cor 1,24).

 

          1. O martírio da missão oculta pela fé e a esperança

          A atitude missionária de não impor condições ao anúncio do Reino, é na realidade uma atitude martirial. O zelo apostólico do missionário não pode deter-se ante as dificuldades nem pode-se condicionar a interesses e preferências subjetivas.

          Freqüentemente a missão apresenta a característica de virtude heróica, especialmente pela fortaleza, perseverança e paciência ilimitada, quando não se constata fruto imediato ou quando se vêem obras apostólicas que custaram grandes suores e acabaram vindo abaixo.

          Dizia Teresa de Lisieux que “todos os missionários são mártires pelo desejo e pela vontade”, porque “desejaram entregar sua vida pelo que amam” (Carta 203, ao Pe. Roulland). A doutrina conciliar do Vaticano II traz uma afirmação semelhante: “Anunciando o Evangelho entre os povos, com confiança torne conhecido o mistério de Cristo, em cujo nome exerce sua delegação. N’Ele, ousará falar como convém e não se envergonhará do escândalo da cruz. Seguindo as pegadas do seu Mestre, manso e humilde de coração, mostre que Seu jugo é suave e seu peso, leve. Por uma vida deveras evangélica, em muita paciência, em longanimidade, em suavidade, em caridade não fingida, dê testemunho a seu Senhor, se necessário, até à efusão do sangue” (AG 24).

          O martírio permanente do missionário tem lugar no campo mesmo da vida e da ação apostólica, sempre à luz da fé e com a confiança e tensão da esperança. A fé é sempre misteriosa e não corresponde à lógica e aos cálculos humanos. Viver confiada e audaciosamente, com a convicção de que sempre se é possível fazer o melhor, é o martírio da esperança, que se traduzirá em uma “vida escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3), como o grãozinho de trigo que parece morrer na terra (C f Jo 12,24). É uma vida de “Nazaré” missionária. Poder-se-ia dizer que é “o martírio segundo o Evangelho” de que fala São Policarpo, isto é, pelo fato de se viver de acordo com a mensagem de Jesus.

          Missão, em Teresa de Lisieux, é o mesmo que sofrer amando: “Eu gostaria de ir a Hanói para sofrer muito por Deus. Quisera ir para lá e ali estar inteiramente sozinha, para não ter consolo algum na terra”. (Últimas Palavras, 14.5.6)

          A vida é martirial quando não se busca o próprio interesse, mas sim o interesse de servir à salvação de todos: “Sabendo que neste instante há almas que estão em perigo de perder-se... dou-lhes tudo o que possuo, e ainda não encontrei um momento para dizer-me: agora vou trabalhar para mim”. (Últimas Palavras, 14.7.2)

          O martírio da missão consiste também em considerar-se apenas um instrumento vivo: “Que importa que seu eu ou outro que revele esse caminho às almas! Que importa o instrumento!” (Últimas Palavras, 21.7.5)

          Esse martírio pela fé e a esperança tem repercussões insuspeitadas: “... as graças, as luzes que recebemos são devidas a uma alma escondida... Quantas vezes pensei que podia dever todas as graças que recebi às orações de uma alma que as tivesse pedido ao Bom Deus e que só conhecerei no Céu! Sim, uma centelha minúscula poderá fazer nascer grandes luzes em toda a Igreja, como doutores e mártires”. (Últimas Palavras, 15.7.5)

          Teresa de Lisieux imaginava as fadigas da vida missionária. Tomava-as como suas e oferecia suas fadigas para aliviar as dos missionários: “Sabem o que me dá força? Pois bem, caminho por um missionário para diminuir suas fadigas e ofereço as minhas a Deus”. (Últimas Palavras, Varia, 2).

          As surpresas da vida missionária fazem sofrer, mas são fecundas. Por isto, um sinal de que a missão é martirial é a autenticidade do missionário, sem complexos de herói. Vive-se somente por Cristo e então “a morte é um lucro”(Fl 1,21). “Se eu morresse aos 80 anos, e tivesse estado na China e em todas as partes do mundo, estou segura de que morreria tão pequena como hoje”. (Últimas Palavras, 25.9.1).

          Viver e morrer, a surpresa de Deus, é o martírio mais simples, gozoso e fecundo: “Se de manhã, um dia, me encontrarem morta, não se atormentem... tudo é graça”. (Últimas Palavras, 5.6.4)

 

          2. O martírio de amor e de sangue

          Estes dois tipos de martírio, o de amor e o de sangue, se completam e se demandam mutuamente. O martírio propriamente dito é o de sangue, isto é, “o Dom total de si mesmo, como fez Cristo na cruz” (VS 89). É o martírio anunciado por Jesus (Cf. n. 15, 18-21; Mt 10, 17-28). No entanto, esse martírio cruento não se improvisa. Ele é preparado pelo martírio de amor na vida cotidiana.

          O martírio de amor é a vida doada gota a gota, em atenção à surpresa de Deus. À iniciativa de Deus se entrega também o gênero de morte e as dificuldades que possam sobrevir. Esta atitude martirial é a sede de almas que queima a vida, tornando-a fecunda: “A caridade de Cristo me impele”(2Cor 5,14). A vida apostólica se consome na chama dos amores de Cristo: “Tenho outras ovelhas” (Jo 10,16); “vim para trazer fogo”(Lc 12,49); “Todos venham a mim”(Mt 11,28); “tenho sede”(Jo 19,28)...

          Desde sua adolescência, Teresa de Lisieux pediu ao Senhor a graça do martírio. Fala a este respeito ao narrar sua visita ao Coliseu de Roma: “Meu coração palpitava ao pousar meus lábios sobre a lápide purpurada com o sangue dos primeiros cristãos. Pedi a graça de também me tornar mártir por Jesus, e senti no fundo de meu coração que minha oração era ouvida!” (História de uma Alma, VI).

          A Padroeira das Missões chama o martírio de “o sonho de minha juventude”, com conseqüências ilimitadas e com o desejo de imitar a todos os mártires: “Desejaria, sobretudo, ó amantíssimo Salvador meu!, derramar por ti até a última gota de meu sangue. O martírio! Eis aí o sonho de minha juventude.... Desejaria sofrer todos os suplícios infligidos aos mártires... e com Santa Joana D’Arc, minha irmã querida, quisera murmurar na fogueira teu nome, ó Jesus!”(H.A., IX). Nesta perspectiva de fé, chega a pedir a Deus que seus “irmãos” espirituais, os missionários, alcancem a palma do martírio (Cf. Carta 178 e 225, ao Pe. Roulland, e Carta 201, ao Pe. Bellière).

          Tinha santa inveja da mártir Cecília: “Como tu, quisera imolar minha vida, dar-lhe todo meu sangue” (Poesia 3). Quando se refere aos heróis da história, não hesita em afirmar que “todos juntos não valem mais que um mártir” (Poesia 11). Dedica também uma poesia especial ao martírio do santo missionário Teophanes Vénard (Poesia 38). Pede a São Sebastião poder seguí-lo em seu destino martirial. (Oração).

          No dia de sua profissão, ainda com todas as suas forças juvenis e sem nenhum sinal da enfermidade futura, levou sobre seu peito um bilhete no qual escrevera: “Jesus, que eu morra mártir por tu, com o martírio do coração ou do corpo, ou melhor ainda, com os dois”. (Orações e outros Escritos, 2). Em carta à sua irmã Inês de Jesus, afirma: “Ao Cordeiro e ao cordeirinho é-lhes necessária a palma de Inês; se não for pelo sangue, que o seja pelo amor”(Carta 67).

          Para sempre e apesar desses desejos e orações, Teresa de Lisieux seria “mártir” de amor, com a particularidade de poder descobrir também o sentido martirial de sua doença e de suas hemoptises: “Eu bem sabia que teria o consolo de ver meu sangue derramado, já que morro mártir de amor”. (Últimas Palavras, Varia 5).

          A característica básica que sobressai dessas afirmações de Teresa de Lixieux sobre o martírio é a sua vitimação pelo amor. É o martírio de desapegar-se inteiramente por Cristo (Carta 62), de aceitar a secura (Carta 73), de transformar toda a vida em oblação de amor: “Façamos de nossa vida um sacrifício contínuo, um martírio de amor para consolar a Jesus” (Carta 74, a Celina).

          O sofrimento afrontado por amor transforma a vida em martírio fecundo. Dessa forma, é “o martírio do coração”, o sofrimento íntimo da alma” (Carta 146, a Celina). Então “o martírio do coração não é menos fecundo que o derramamento do sangue” (Carta 184, ao Pe. Bellière).

          Seu “martírio” de amor, considera-o um Dom especial de Deus, da mesma forma que o martírio de sangue. Sua vida encontra-se orientada para ele: “Morrer de amor, dulcíssimo martírio que eu gostaria de sofrer” (Poesia 17; cf. Poesia 22). E irá repetindo sem se cansar: “Teu amor é meu martírio” (Poesia 28).

          O oferecimento como vítima do Amor misericordioso tem esta conotação martirial: Que eu chegue a ser mártir por vosso amor. Que este martírio, depois de ter-me preparado para comparecer diante de vós, me faça, por fim, morrer”. (Orações e outros Escritos).

          Estes desejos profundos iam-se concretizando na vida diária. Em todas as coisas e acontecimentos encontrava o sentido que a orientava até o amor, especialmente em sua última enfermidade: “Quando penso que morro na cama! Gostaria de morrer na arena!”(Últimas Palavras, Varia, 4.11).

          A expressão “sangue” tem conotações de doação sacrifical. Trata-se de uma vida doada plenamente nos altares da vontade de Deus. Derramar o sangue equivale a dar a vida por amor. Em sintonia com as vivências de Cristo Bom Pastor, isso se traduz numa sede ardente de almas.

          A vida de Teresa de Lisieux é martírio de amor, porque se gasta gota a gota para apagar a sede de Cristo e recolher e aplicar seu sangue redentor. Contemplando uma estampa de Jesus crucificado, cuja mão ensangüentada destacava-se no livro, afirma: “Fiquei profundamente impressionada ao ver o sangue que caia de uma de suas mãos... caía ao solo sem que ninguém viesse recolhê-la.... resolvi manter-me em espírito ao pé da cruz para receber o divino orvalho que dela gotejava, compreendo que logo teria que derramá-lo sobre as almas(H.A. cap. V). Poucos dias antes de morrer, em circunstâncias semelhantes, repete quase as mesmas palavras: “Não quero deixar que se perca esse sangue precioso. Passarei minha vida recolhendo-o para as almas”. (Últimas Palavras, agosto 1897).

          A ânsia de martírio se alimenta da sede missionária de salvar almas. A sede de Cristo na cruz contagia os apóstolos de um zelo universal: “O grito de Jesus na cruz ressoava continuamente em meu coração: Tenho sede! Estas palavras acendiam em mim um ardor vivíssimo e desconhecido... Eu mesma me sentia devorada pela sede de almas” (H.A. cap. V). E conclui: “Às almas eu dava o sangue de Jesus, e a Jesus eu oferecia estas almas refrescadas com seu divino orvalho, e deste modo me parecia acabar-lhe a sede” (ibidem).

          Os sofrimentos e dificuldades da vida missionária se transformaram em fecundidade apostólica por ser o martírio íntimo de uma vida doada: “Jesus deseja ser auxiliado em seu divino cultivo de almas”(H.A. cap. V). “Ofereçamos nossos sofrimentos a Jesus para salvar almas... todo o sangue de um Deus foi derramado para salvá-las. Jesus quer fazer depender sua salvação de um suspiro de nosso coração” (Carta 61, a Celina). “Amemo-lo, pois, até a loucura, salvemo-lhe almas... nos pede que aplaquemos sua sede dando-lhe almas... Jesus quer que a salvação das almas dependa de nossos sacrifícios, de nosso amor... Ele nos mendiga almas... um olhar e um suspiro que serão somente para ele” (Carta 74, a Celina). “É tão doce ajudar Jesus a salvar almas que ele redimiu com o preço de seu sangue!” (Carta 171, a Leônia). Quase em seus últimos momentos e abrasada de sede, Teresa de Lisieux dirá com confiança filial: “Meu Jesus, vossa filhinha tem muita sede... sente-se feliz... por assemelhar-se ainda mais a vós e em salvar almas”. (Últimas Palavras, por Irmã Maria da Trindade).

 

          3. A fecundidade missionária da cruz

          A missão, por ser prolongamento da vida de Cristo, percorre seu caminho de imolação, e “tem seu ponto de chegada aos pés da cruz”(RMI 88). Todo missionário conhece muito bem este caminho e está convencido de que não há fecundidade sem cruz, como “não há redenção sem derramamento de sangue” (Hb 9,22).

          A cruz não significa diretamente dor, mas o amor oblativo traz ordinariamente consigo o sofrimento. Em Teresa de Lisieux o sofrimento está sempre acompanhado de amor, sem o qual não terá sentido cristão ou missionário: “O sofrimento, unido ao amor, é a única coisa que me parece desejável no vale de lágrimas... É verdade que sua cruz me acompanha desde o berço, mas Jesus me fez amar com paixão esta cruz” (Carta 224, ao Pe. Bellière). “O sofrimento me estendeu seus braços, e eu me envolvi neles com amor” (H.A. cap. VII).

          A fecundidade apostólica, como em Paulo, ocorre por meio do sofrimento transformado em amor (Cf. Gl 4,19; Cl 1,24). Para Paulo, trata-se da dor da maternidade apostólica, conforme o anúncio de Cristo na última ceia (Cf. Jo 16,21-22). Por isso Teresa diz: “As almas mas queria dar por causa da Cruz”(H.A. cap. VII). “Vejo que só o sofrimento é capaz de gerar almas” (H.A. cap. VIII). “Só o sofrimento pode gerar almas para Jesus” (Carta 108, a Celina).

          A alegria unida ao sofrimento não consiste em sofrer por sofrer, mas na alegria de poder compartilhar a mesma sorte de Cristo, segundo a perspectiva paulina: “Estou cheio de consolação, transbordo de gozo em todas as nossas tribulações”(2Cor 7,4). Então a “tristeza” e o medo do sofrimento se transformam em “gozo que ninguém pode tirar” (Jo 16,20.22). Dizia Teresa de Lisieux: “Sofro com alegria e paz. Verdadeiramente encontro minha alegria em sofrer”(H.A., cap. X).

          O gozo missionário do sofrimento se alimento do ardor apostólico no estilo do Bom Pastor. Esse é o preço das almas: “Sofrendo se pode salvar almas” (Carta 23., a Irmã Inês). Por isto, para ela, “um dia sem sofrer é um dia perdido” (Carta 26, a Celina).

          Nem sempre se trata de grandes sofrimentos, mas daqueles pequenos espinhos da vida cotidiana: “Não percas nenhum dos espinhos que encontras a cada dia! Com um deles podes salvar uma alma!” (Carta 72, a Maria Guérin). “Não lhe recusemos o menor sacrifício.... Recolher um alfinete por amor pode converter uma alma! Que mistério!” (Carta 143, a Leônia).

          Muito menos se trata de buscar explicações teóricas, mas sim imitar o exemplo do próprio Jesus: “Quer que comeceis já a vossa missão, e que pelo sofrimento salveis as almas. Não foi sofrendo e morrendo que ele redimiu o mundo?”(Carta 184, ao Pe. Bellière). Por isto, “a oração e o sacrifício constituem toda a minha força, são as armas invencíveis que Jesus me deu. Elas podem, muito mais que as palavras, comover os corações”. (H.A. cap. XI).

          A doutrina de Teresa de Lisieux sobre a fecundidade missionária da cruz, se inspira em toda a tradição missionária eclesial. Em carta a seu “irmão” missionário, Pe. Roulland, cita uma afirmação do mártir Teophanes Vénard: “Toda a vida do missionário é fecunda em cruzes”. Ela comenta: “Meu irmão, os inícios de vosso apostolado estão marcados pelo sinal da cruz” (Carta 203). É o que afirmam tantas almas apostólicas: “Costumam fracassar muitos apostolados, menos o da cruz” (Me. Concepción Cabrera de Armida).

 

          4. Ser Igreja Mãe com Maria Rainha dos Mártires

          A tradição cristã sempre apresentou Maria como “Rainha dos Mártires”. Assim também a chama Teresa de Lisieux: “Ó, Rainha dos Mártires, a espada dolorosa traspassará teu peito até a noite da vida” (Poesia 54). De fato, Maria, “guiada pelo Espírito Santo, consagrou-se inteiramente ao serviço da redenção dos homens” (PO 18) e “associou-se com entranhas de Mãe ao sacrifício de Cristo, que consiste amorosamente na imolação da vítima que ela mesmo gerara” (LG 58).

          A patrona das Missões refere-se freqüentemente a Maria, exatamente por relacionar maternidade e missão. O ponto de partida é sempre Jesus Cristo, que, “sofreu este martírio para salvar almas, abandonou sua Mãe, viu a Virgem Imaculada de pé junto à cruz com o coração traspassado por uma espada de dores” (Carta 184, ao Pe. Bellière). Daí passa a descobrir o sentido maternal do martírio de Maria (Poesia 54). Por isto, o coração materno de Maria é “imenso”, porque nele cabe a humanidade inteira (ibidem).

          O martírio de amor, em Teresa de Lisieux, se converte em maternidade fecunda, como “Mãe das almas” (H.A. cap. IX; Carta 114). Esta expressão é freqüente em seus escritos. Trata-se da fecundidade que provém do sofrer amando e da virgindade como esponsal com Cristo: “Sou virgem, ó Jesus! Não obstante, que mistério! ao unir-me eu a ti, sou mãe de almas (Poesia 22). “Nunca imaginei que fosse possível sofrer tanto!... Não encontro explicação para isto, a não ser pelos desejos ardentes que tenho tido de salvar almas”. (Últimas Palavras, último dia).

          Neste sofrimento materno e fecundo torna-se transparente a maternidade de Maria e da Igreja missionária. O sofrimento se transcende ao converter-se em doação materna a exemplo de Maria: “Sofrer amando é a mais pura felicidade!.... Quero viver contigo, Mãe Amada.... de teu imenso coração descubro os abismos de amor. Teu olhar maternal desvanece meus medos, e me ensina a chorar, e me ensina a sorrir”(Poesia 44).

          O martírio da vida cotidiana, vivida por amor, é o que mais se assemelha ao martírio da Rainha dos mártires, que consistiu principalmente na “noite da fé”. Descreve a fé de Maria em Belém com estas palavras: “Mãe do Salvador, que acho tão amável, como te vejo grande em lugar tão pequeno!... Eu te amo ao ver-te também, entre as outras mulheres, os passos dirigindo ao Templo do Senhor. Teu doce menino, Mãe, quer que tu sejas o exemplo vivo da alma que o busca ocultamente, na noite da fé... Sem arrebatamento ou êxtase e milagres... (Poesia 54).

          Maria é, ao mesmo tempo, “Rainha dos Apóstolos e dos mártires”(Carta 178, ao Pe. Roulland). Por isto, Teresa de Lisieux, como “florzinha da Virgem” sente-se ligada à maternidade virginal e dolorosa de Maria: “Jesus se esconde... Derramando lágrimas, se lhe enxugam as suas, e a Santíssima Virgem sorri. Pobre Mãe! Sofreu tanto por nossa causa! É justo que nós a consolemos, mesmo chorando e sofrendo com ela” (Carta 32, a Celina).

          Olhando Maria, Rainha dos Apóstolos e dos mártires, a vida missionária recupera sua misteriosa fecundidade: “Meditando tua vida, tal como a descreve o Evangelho, eu me atrevo a olhar-te e até a aproximar-me de ti. Não me custa crer que sou tua filha, quando vejo que morrer, quando vejo que sofres como eu”. (Poesia 54).

          A atitude martirial de Teresa de Lisieux tem dimensão eclesial. A vida missionária é bela porque se desenvolve no coração da Igreja, consumindo-se nos altares do amor. Esta é a vocação missionária da santa: “A caridade deu-me a chave de minha vocação... Compreendi que a Igreja tinha coração... Compreendi que o amor encerrava todas as vocações... Por fim, encontrei minha vocação. Minha vocação é o amor!... No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor!”(H.A. cap. IX)

          O sentido teresiano de ser “filha da Igreja”, recupera sua dimensão missionária e martirial: “Eu sou filha da Igreja...” (H.A. cap. IX). Esta atitude eclesial desborda as barreiras do tempo: “Espero não ficar inativa no céu. Meu desejo é seguir trabalhando pela Igreja” (Carta 225, ao Pe. Roulland).

          A vida missionária é martirial porque se consome apenas por Cristo e por sua Igreja. “Quem tem espírito missionário sente o ardor de Cristo pelas almas e ama a Igreja, como cristo”(RMI 89). Assim era o zelo missionário de Santa Teresa de Lisieux: “Nada me pára nas mãos. Tudo o que tenho, tudo o que ganho é para a Igreja e para as almas”(Últimas Palavras, 12.7.3).

          Muitas almas missionárias têm desejado imitar as atitudes de Teresa de Lisieux: “Quero ser santa como Santa Teresinha salvando muitas almas... Para mim não haveria felicidade maior que a de poder sofrer e amar pelas almas... Se não é para salvar almas, não vale a pena viver... As almas têm um preço muito alto, mas é preciso comprá-las com seu custo, pois o Senhor tem sede... Senhor, que todos te conheçam e te amem! Esta é a única recompensa que quero”.

 

          5. Martírio missionário: O amor apaixonado por Cristo

          Se é verdade que “no martírio resplandece a intangibilidade da dignidade pessoal do homem (VS 92) e, ao mesmo tempo, o martírio “é sinal preclaro da santidade da Igreja (VS 93), então o martírio se transforma em “anúncio solene e compromisso missionário” (ibidem).

          No que diz respeito à pessoa do missionário, sua atitude martirial enraíza-se num “amor apaixonado por Jesus Cristo” (VC 109). Só a partir deste amor, pode-se passar para o “anúncio apaixonado de Jesus Cristo àqueles que ainda não o conhecem, aos que estão esquecidos, preferentemente aos pobres”(VC 75). A vida se hipoteca para viver deste anúncio apaixonado aos mais pobres, isto é, aos que não vivem da fé nele.

          Os grandes missionários, como o Pe. Manna, têm destacado a relação de intimidade com Cristo como fonte da disponibilidade missionária: “O missionário não é nada se não se personifica em Cristo... Somente o missionário que imita fielmente a Cristo, pode reproduzir sua imagem aos outros”. (Pe. Manna, Carta 6).

          A vida de um apóstolo é uma “história de amizade com o Senhor” (VC 64). Percorre-se então um “itinerário de progressivo assemelhamento aos sentimentos de Cristo (VC 65) para poder se entregar a uma “tensão missionária”(VC 77) de sentido martirial, a exemplo de Teresa de Lisieux e de Francisco Xavier. Sem esta tensão contemplativa e apostólica, de “comunhão íntima com Cristo.... que tem seu ponto de chegada aos pés da cruz” (Rmi 88), “o missionário não pode anunciar a Cristo de modo convincente” (Rmi 91)

          Uma fotografia de 17 de março de 1896, mostra Teresa de Lisieux com um letreiro nas mãos, no qual está escrita a frase de Santa Teresa de Ávila: “Eu daria mil vidas para salvar uma só alma”.

          O amor que constitui a essência dessa atitude martirial é o amor que aspira a totalidade, que tende a dar de tudo continuamente e para sempre. A vocação de Teresa de Lisieux ela mesma a define: “Minha vocação é o Amor!”(H.A. cap. IX). Já não tem outro desejo a não ser “amar a Jesus com loucura”, porque “o amor é a única coisa que me atrai” (H.A. cap. VIII). “Há muito tempo não mais me pertenço, pois estou totalmente entregue a Jesus”(H.A. cap. X).

          Se, segundo Santo Tomás, “o martírio é um ato de fortaleza”, essa fortaleza martirial expressa-se principalmente na decisão permanente de gastar a vida amando e fazendo amar a Cristo. O “mártir” é “testemunha” do mistério pascal de Cristo, através de uma vida que deixa brilhar a oblação do Senhor: “Sereis minhas testemunhas” (Hb 1,8).

          Assim é a paixão martirial de Teresa de Lisieux, que tende sempre e apenas a transmitir o Amor, a “amá-lo e fazê-lo amar” Carta 89, a Irmã Inês), como uma opção fundamental e vocacional pelo Amor, com a característica dominante de ser “o amor no coração da Igreja” (H.A. cap. IX).

          Quando se intui o final desta vida consumida por amor como um martírio permanente, todo missionário é capaz de dizer, como Teresa de Lisieux pouco antes de morrer: “Não me arrependo de haver-me entregue ao Amor” (Últimas Palavras, 30.9.97). Essa vida martirial se equivale ao martírio de sangue e é também sua melhor preparação.