Papa aos futuros sacerdotes: cristianismo não é moralismo, mas dom

Na “lectio divina” com os seminaristas da diocese de Roma

Por Mirko Testa 

 

          ROMA, segunda-feira 22 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- O cristianismo não consiste tanto no respeito das normas externas como em penetrar no mistério de Deus, que se sacrificou gratuitamente e que sofreu por amor, e modelar nossos atos levando isso em consideração.

          Foi o que afirmou no dia 12 de fevereiro o Papa Bento XVI, na Capela do Seminário Romano Maior, ao encontrar-se com mais de 200 alunos seminaristas da diocese de Roma. Eles estavam acompanhados por seus orientadores, diretores espirituais e educadores - e junto aos jovens do ano propedêutico que estão verificando sua vocação e a possibilidade de entrar no seminário em 2011.

          Tradicionalmente, durante a festa de Nossa Senhora da Confiança, patrona do Instituto, que acontece sábado dia 13 de fevereiro, o Papa se encontra com os seminaristas e tem uma refeição com eles.

          Este ano, pela primeira vez, se reuniram no Seminário Romano todos os seminaristas da diocese de Roma, incluindo os do Pontifício Seminário Romano Menor, Colégio diocesano Redemptoris Mater, Almo Collegio Capranica e os do Seminário de Nossa Senhora do Amor Divino.

          O Papa centrou a lectio divina na parábola da vinha e dos ramos (Jo 15, 1-8), que tem muita relação com o Ano Sacerdotal que está acontecendo, porque “fala indireta, mas profundamente do sacramento, do chamado, do estar na vinha o Senhor e dos servidores de seu mistério”.

          A vinha - explicou o pontífice - é uma imagem veterotestementária que serve para indicar o Povo de Deus: “Deus plantou uma videira neste mundo. Deus cultivou e a protegeu”.

          Ao mesmo tempo, continuou, “essa imagem da videira tem um significado esponsal e é expressão do fato que Deus busca o amor de sua criatura, que quer entrar em uma relação de amor, em uma relação esponsal com o mundo através do Povo eleito por Ele”.

          Contudo, comentou o Papa, “a história concreta desse Povo é uma história de infidelidade”, que no lugar de “uvas preciosas”, gerou “somente pequenas coisas não comestíveis”.

          Na verdade, “essa unidade, união sem condições entre homem e Deus”, não foi convertida “na comunhão do amor”. Ao contrário, “o homem se fecha em si mesmo, quer possuir a si próprio, quer ter Deus e o mundo para ele mesmo. E assim a vinha é devastada” e “se converte em um deserto”.

          Mas “Deus - prosseguiu o Papa - se faz homem e se converte ele mesmo na raiz da videira” e “ assim a videira é indestrutível porque Deus mesmo se implantou nesta terra”.

          Por isso “o cristianismo não é um moralismo. Não somos nós quem devemos fazer o que Deus espera do mundo”, porque na realidade “devemos, antes de tudo, entrar nesse mistério ontológico em que Deus se entrega”.

          Devemos “estar nele”, identificarmo-nos com Ele, ser “enobrecidos em seu sangue” para “atuar com Cristo”, porque - explicou o Papa - “a ética é consequência do ser” e “o ser precede o atuar”. “Não é uma obediência, uma coisa externa, e sim a realização do dom do novo ser”.

          Viver na criatividade do amor de Cristo

          Sucessivamente, o Papa recordou o convite dirigido por Jesus aos apóstolos no contexto da Última Ceia: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, comentando que o que foi expressado aqui é uma “radicalização do amor ao próximo à imitação de Cristo”.

          “Mas também aqui a verdadeira novidade não é quanto fazemos, a verdadeira novidade é quanto o Senhor está fazendo. O Senhor nos deu a si mesmo”, nos “deu a verdadeira novidade de sermos membros de seu Corpo”.

          E, portanto, “a nova Lei não é outro mandato mais difícil do que os demais. A nova Lei é um dom”, é a “presença do Espírito Santo que nos foi dada no sacramento do Batismo, na Confirmação e que nos é dada cada dia na Santíssima Eucaristia”.

          “A novidade portanto é que Deus se deu a conhecer - acrescentou -, que Deus se mostrou, que Deus já não é um Deus desconhecido, procurado mas não encontrado ou imaginado apenas de longe”. “Deus se fez ver no rosto de Cristo”, “se mostrou em sua realidade total, mostrou o que é razão e amor” e assim nos fez seus amigos.

          “Infelizmente, ainda hoje, - observou o pontífice - muitos vivem longe de Cristo, não conhecem seu rosto e assim a eterna tentação do dualismo se renova sempre e talvez não haja só um princípio bom mas também um principio do mal”, de modo que o que domina é a visão de um mundo à mercê das “realidades igualmente fortes”.

          “Também na teologia católica - lamentou - se difunde agora essa tese de que Deus não seria onipotente”. Tenta-se uma espécie de “apologia de Deus”, segundo a qual Deus “não seria responsável pelo mal que encontramos amplamente no mundo”.

          “Mas que pobre apologia: um Deus não onipotente. E como poderíamos nos confiar a esse Deus, como poderíamos estar seguros de seu amor se esse amor acaba onde começa o poder do mal?”, perguntou.

          “Mas Deus já não é um desconhecido: no rosto de Cristo crucificado vemos Deus e vemos a verdadeira onipotência, não o mito da onipotência”, esse mito alimentado por homens que concebem o poder como “capacidade de destruir, de fazer o mal”.

          Ao contrário, explicou o Papa, “a verdadeira onipotência é amar até o ponto de que Deus pode sofrer” por nós.

          Por isso que a verdadeira justiça já não se revela mais como uma “obediência a algumas normas”, mas como “o amor criativo que encontra por si a riqueza e a abundância do bem”; como o “viver na criatividade do amor com Cristo e em Cristo”, de um amor impregnado de “dinamismo”.

          Oração e purificação

          O Papa passou a falar do valor da oração e da importância invocar de Deus o “dom divino”, “a grande realidade”, “para que nos dê seu Espírito de modo que possamos responder às exigências da vida e ajudar os demais em seus sofrimentos”.

          “É justo rezar para Deus também pelas coisas pequenas de nossa vida de cada dia - declarou o pontífice - mas ao mesmo tempo rezar é um caminho, uma escada. Devemos aprender cada vez o que podemos ou não pedir, se forem expressões de meu egoísmo” ou de “meu orgulho”.

          Dessa maneira, rezar “converte-se em um processo de purificação de nossos pensamentos e de nossos desejos”.

          “Permanecer em Cristo é um processo de purificação lenta, de libertação de mim mesmo”, um “caminho verdadeiro” que se abre à alegria e que está caracterizado por um “fundo sacramental”.

          “Assim - prosseguiu - podemos aprender que Deus responde as nossas orações” e frequentemente “as corrige, transforma e as guia para que sejamos finalmente ramos de seu Filho, da “verdadeira videira”, membros de Seu corpo”.

          “Demos graças a Deus pela grandeza de seu amor - concluiu. Oremos para que nos ajude a crescer em seu amor e permanecer realmente em seu amor”.