O Código de Direito Canônico se ocupa da formação dos candidatos ao sacerdócio, ou seminaristas. Não só presta atenção à formação doutrinal religiosa, ou também à formação pastoral, senão que também se preocupa de uma questão tão delicada -e de tanta transcendência para a vida da Igreja- como é sua formação espiritual. Além de dar os critérios da formação espiritual de quem é candidato ao sacerdócio, se ocupa também de estabelecer o modo de exercer a direção espiritual, com uma legislação que facilita muitíssimo que o seminarista possa receber uma efetiva direção espiritual, e além do mais garantindo a necessária liberdade do seminarista ao escolher o seu diretor espiritual.

O mesmo se pode dizer -mutatis mutandis- da confissão dos seminaristas. O legislador canônico se ocupa de possibilitar a recepção freqüente do sacramento do perdão por parte dos seminaristas, e arbitra medidas para que efetivamente lhes seja facilitada a confissão, sempre respeitando a legítima liberdade que tem cada um para escolher seu confessor.

Assim, a legislação em vigor garante a necessária reserva das conversas de ajuda e direção espiritual que o seminarista mantenha, inclusive no momento de tomar uma decisão tão transcendente como é a de propor a admissão de um candidato às Ordens sagradas.

Estes são os cânones que falam da matéria:

Cânon 239 § 2: Em todo seminário deve ter pelo menos um diretor espiritual, ficando mesmo assim livres os alunos para acudir a outros sacerdotes que tenham sido destinados pelo Bispo para esta função.

Cânon 240 § 1: Além dos confessores ordinários, venham regularmente ao seminário outros confessores; e, ficando a salvo a disciplina do centro, os alunos também poderão dirigir-se sempre a qualquer confessor, tanto no seminário como fora dele.

§ 2: Nunca se pode pedir a opinião do diretor espiritual ou dos confessores quando se deve decidir sobre a admissão dos alunos às ordens ou sobre sua saída do seminário.

Cânon 246 § 4: Acostumem os alunos a acudir com freqüência ao sacramento da penitência, e se recomenda que cada um tenha um diretor espiritual, escolhido livremente, a quem possam abrir sua alma com toda confiança.

Cânon 985: O mestre de noviços e seus assistentes e o reitor do seminário ou de outra instituição educativa não devem ouvir confissões sacramentais de seus alunos residentes na mesma casa, a não ser que os alunos o peçam espontaneamente em casos particulares.

Como se vê por estes cânones, se estabelece a obrigação para a legítima autoridade do seminário de nomear ao menos um diretor espiritual. O cânon 239 § 2 estabelece que entre os designados para esta função, o seminarista pode acudir livremente a outros sacerdotes designados pelo Bispo para esta função.

Igualmente, o seminário deve prover a nomeação de confessores ordinários, e procurar que venham outros confessores. Os seminaristas podem acudir livremente a qualquer confessor, com a única limitação de preservar a disciplina do seminário. A alusão à disciplina do seminário se deve entender feita a respeito por parte do seminarista das horas de entrada e saída e outras normas disciplinares semelhantes, nunca ao estabelecimento por parte das autoridades do seminário de um ou vários confessores aos que obrigatoriamente devam acudir os seminaristas. Outra interpretação distinta desvirtuaria o teor literal do cânon 240 § 1.

O seminarista pode escolher um diretor espiritual distinto dos diretores espirituais nomeados pela autoridade do seminário? Parece que sim, de acordo com o cânon 240 § 1. Ainda que não indique expressamente que o diretor espiritual possa ser escolhido fora do seminário -como sim, se diz do confessor- tampouco o exclui. O cânon 239 § 2 indica que os seminaristas podem acudir a diretores espirituais designados pelo Bispo para o seminário. Mesmo assim o cânon 246 § 4 indica expressamente que o diretor espiritual possa ser escolhido livremente, sem assinalar nenhuma restrição. Deve-se ter também em conta que o cânon 18 estabelece que as leis que limitem o livre exercício dos direitos se devem interpretar estritamente.

À vista das anteriores conclusões, se pode dizer que é missão da autoridade do seminário nomear confessores e diretor espiritual, e abster-se de intervir na formação espiritual dos seminaristas para respeitar sua liberdade. Ou inclusive que o diretor espiritual, uma vez que ofereceu sua atenção aos alunos do seminário, deve despreocupar-se do andamento do seminário ou de se os seminaristas acodem à direção espiritual ou não. Mas tal interpretação é falsa: nada mais longe do que o Código de Direito canônico pretende.

O diretor espiritual do seminário tem funções comuns a todo o seminário, coletivas para todos os seminaristas: assim, deve preocupar-se de tudo o que se refere à formação espiritual de quem quer ser sacerdote. Os cânones 245 e 246 falam especificamente da formação espiritual que deve prestar um seminário: e essa é uma função específica do diretor espiritual. Também deverá encarregar-se da pregação no seminário; muitas vezes se realizará por meio de outros, mas será função do diretor espiritual assegurar a pregação periódica, quiçá estabelecendo um plano de práticas ou homilias que garantam uma pregação organicamente estruturada. Estes são dois exemplos das funções de direção espiritual comuns a todo o seminário.

E tampouco aí acabam as funções do diretor espiritual. O diretor espiritual deverá seguir o andamento de cada aluno, não só oferecendo-se a falar com cada um, senão preocupando-se do acompanhamento e direção espiritual de cada um. Não pode violentar a legítima liberdade do seminarista de escolher seu diretor espiritual, mas tampouco deve desentender-se da direção espiritual de cada um: se o seminarista tem diretor espiritual, não deve intrometer-se o diretor espiritual do seminário. Mas se o seminarista não escolheu diretor espiritual, pode facilitar-lhe que escolha um, quiçá ele mesmo.

Além do mais, o cânon 240 § 2 estabelece que não se deve pedir a opinião do diretor espiritual ou dos confessores quando se deve decidir sobre a admissão às sagradas ordens ou a saída do seminário. Este cânon se relaciona com o cânon 985: posto que nestas transcendentais decisões sim deva intervir o reitor. O qual, pelo que se vê, nunca deve ser nomeado confessor do seminário. Deste modo o reitor tem as mãos livres para dar sua opinião. Logicamente o reitor nunca pode usar para o governo do seminário, ou para dar sua opinião sobre a admissão às sagradas ordens ou saída do seminário de um aluno, do que houvesse conhecido em confissão: cfr. a respeito o cânon 984 § 2. A finalidade desta norma é não fazer odiosa a direção espiritual. No caso da confissão entra em jogo ademais o sigilo sacramental.